Quem [infelizmente] ganha com os incêndios em Portugal

O nosso país está a arder. As zonas Norte e Centro com vários pontos de fogo… A ilha da Madeira a ferros com um incêndio enorme que já causou fatalidades e fez com que várias pessoas perdessem a sua habitação…

Porquê tudo isto? Será apenas um efeito secundário das altas temperaturas que se têm feito sentir aliadas a uma enorme negligência no tratamento das zonas de mata e floresta? Ou haverá algum interesse para que isto aconteça?

Enquanto preparo este artigo lê-se no Observador:

Neste momento, 3.600 operacionais estão mobilizados para combater os 108 fogos florestais em curso no continente português. São apoiados por 1.130 meios terrestres e 17 meios aéreos.

(…)  3 mortos, mil desalojados, 150 casas destruídas na Madeira.

Lusa ©
Observador | Lusa ©

É arrepiante, não é? Até a NASA publicou imagens destes acontecimentos, vistos de lá de cima:

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Regressando às questões acima, encontramos as repostas escritas pelo Bligz no artigo “A Indústria dos incêndios. Portugal está a arder mas há muito quem ganhe com isso”:

A evidência salta aos olhos: o país está a arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal. Há muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente, da terra queimada. Oficialmente, continua a correr a versão de que não há motivações económicas para a maioria dos incêndios. Oficialmente continua a ser dito que as ocorrências se devem a negligência ou ao simples prazer de ver o fogo. A maioria dos incendiários seriam pessoas mentalmente diminuídas. Mas a tragédia não acontece por acaso. Vejamos:

1 – Porque é que o combate aéreo aos incêndios em Portugal é TOTALMENTE concessionado a empresas privadas, ao contrário do que acontece noutros países europeus da orla mediterrânica?

-Porque é que os testemunhos populares sobre o início de incêndios em várias frentes imediatamente após a passagem de aeronaves continuam sem investigação após tantos anos de ocorrências?

-Porque é que o Estado tem 700 milhões de euros para comprar dois submarinos e não tem metade dessa verba para comprar uma dúzia de aviões Cannadair?

-Porque é que há pilotos da Força Aérea formados para combater incêndios e que passam o Verão desocupados nos quartéis?

-Porque é que as Forças Armadas encomendaram novos helicópteros sem estarem adaptados ao combate a incêndios? Pode o país dar-se a esse luxo?

Cannadair

2 – A maior parte da madeira usada pelas celuloses para produzir pasta de papel pode ser utilizada após a passagem do fogo sem grandes perdas de qualidade. No entanto, os madeireiros pagam um terço do valor aos produtores florestais. Quem ganha com o negócio? Há poucas semanas foi detido mais um madeireiro intermediário na Zona Centro, por suspeita de fogo posto. Estranhamente, as autoridades continuam a dizer que não há motivações económicas nos incêndios…

3 – Se as autoridades não conhecem casos, muitos jornalistas deste país, sobretudo os que se especializaram na área do ambiente, podem indicar terrenos onde se registaram incêndios há poucos anos e que já estão urbanizados ou em vias de o ser, contra o que diz a lei.

4 – À redacção da SIC e de outros órgãos de informação chegaram cartas e telefonemas anónimos do seguinte teor: “enquanto houver reservas de caça associativa e turística em Portugal, o país vai continuar a arder”. Uma clara vingança de quem não quer pagar para caçar nestes espaços e pretende o regresso ao regime livre.

5 – Infelizmente, no Norte e Centro do país ainda continua a haver incêndios provocados para que nas primeiras chuvas os rebentos da vegetação sejam mais tenros e atractivos para os rebanhos. Os comandantes de bombeiros destas zonas conhecem bem esta realidade.

(…)

Estranhamente, o Estado não faz o que poderia e deveria fazer:

1 – Assumir directamente o combate aéreo aos incêndios o mais rapidamente possível. Comprar os meios, suspendendo, se necessário, outros contratos de aquisição de equipamento militar.

2 – Distribuir as forças militares pela floresta, durante todo o Verão, em acções de vigilância permanente. (Pelo contrário, o que tem acontecido são acções pontuais de vigilância e combate às chamas).

3 – Alterar a moldura penal dos crimes de fogo posto, agravando substancialmente as penas, e investigar e punir efectivamente os infractores

4 – Proibir rigorosamente todas as construções em zona ardida durante os anos previstos na lei.

5 – Incentivar a limpeza de matas, promovendo o valor dos resíduos, mato e lenha, criando centrais térmicas adaptadas ao uso deste tipo de combustível.

6 – E, é claro, continuar a apoiar as corporações de bombeiros por todos os meios.

Para rematar todas estes “incentivos” à criação e propagação de incêndios, temos que medir ainda quais as consequências dos que são apanhados pelas autoridades! Avança o JN:

Mais de metade dos suspeitos de fogo posto que a PJ detém são logo libertados por juiz de instrução.

O alegado autor do violento incêndio da Madeira ficou, na quarta-feira, em prisão preventiva, mas já tinha sido detido pelo mesmo tipo de crime, em 2011, e, na altura, foi logo libertado por um juiz. Em Braga, o suspeito de atear um fogo na zona do Sameiro, também esta segunda-feira, tinha sido condenado por um crime de incêndio florestal, no passado mês de abril, a uma pena suspensa. E, esta terça, voltou a ter sorte: a Polícia Judiciária levou-o a um juiz, para aplicação de medidas de coação, e ele foi libertado.

Alguns sistemas estão a necessitar urgentemente de uma revisão, pois caso este panorama se continue a verificar, daqui por uns anos o esquema paisagístico português já não vai ser como o conhecemos.